Temos que aprender a aprender…

O inconsciente ocasiona mudanças comportamentais. Benéficas ou não, estarão presentes pós-pandemia. As inseguranças nos fazem olhar para o horizonte e constatar o que Sócrates afirmou: “Só sei que nada sei”, e onde o futuro formatado por taxas de probabilidades insignificantes nos leva a mais incertezas. Para sair do conformismo e reconhecer que o não se saber e o não ter conhecimento já são pontos de largada na corrida da vida e para não apenas “andar” e sim “correr”, temos a educação como aceleradora.

A educação é transformadora, pois, a cada conhecimento adquirido, nunca seremos como antes. Se continuamos iguais, é porque não aprendemos nada, apenas memorizamos uma quantidade expressiva de informações, mas não sabemos como utilizá-las. A educação é libertadora, nos retira de amarras, anula deficiências, inseguranças e temores, oferecendo, assim, a oportunidade de nos sobressair de dependências, necessidades ou adversidades. Com educação construímos o nosso próprio meio, não necessitando viver no espaço dos demais e pensamos de forma proativa, saindo do estado de inércia da espera de um “salvador da pátria”.  Se a educação formativa não concretiza na sociedade seu objetivo “libertador” é porque há algo errado no modelo que escolhemos para educar. Podemos dizer que temos que “aprender a aprender”, e não existe regra ou receita pronta, cada nação e seu povo descobrem pelo ato da experiência, mas é inconsequente ficar fazendo experiências!

A pandemia nos traz muitos aprendizados em diferentes áreas do conhecimento, até porque é fruto de uma situação anteriormente prevista e que agora se fez presente. Basta para isto olhar os dados que foram divulgados pelo Instituto de Saúde Global de Harvard no Fórum Econômico Mundial, no início de 2019, que já alertavam sobre o risco das pandemias. Nossa educação para o conhecimento não conseguiu reconhecer ou realizar a gestão deste risco, e agora basta não realizar o mesmo com relação às mudanças climáticas que a trajetória catastrófica será a mesma. Probabilidade faz parte da ciência, até hoje contribui para explicar muitas coisas do Universo. Assim, não é prudente ignorar o apontamento de riscos, mesmo a taxas insignificantes, pois estas nunca chegaram a zero, logo, podem ocorrer. O filósofo Alfred North Whitehead afirmou que a tarefa do futuro é ser perigoso, mas nos falta conhecimento para prever e achar soluções para os enfrentamentos. Por que deseja o homem ir a Marte se nossas respostas a situações complexas na Terra são lentas ou, às vezes, inexistentes?

Muitos desafios globais são vencidos pela tecnologia, logo, nações que investem na massificação educacional e medem sua eficiência durante o tempo sempre saíram na frente e acharam as soluções. Caberá aos demais agradecer a estes por terem adotado essa conduta. Lacunas ainda existem, mesmo nos países mais desenvolvidos. A pandemia escancarou isto, portanto, temos que “aprender a aprender”, pois o aprendizado não está apenas em um pedaço de tecido tecnológico, mas também no tecido social e cultural. Todo o processo é como uma colcha de retalhos, que somente permitirá verificar e constatar sua utilidade em proteger e aquecer o corpo de uma nação quando pronta… Quando costurada! A Europa olhava para seus “pedaços de tecidos”, entre os quais, refugiados, Brexit, crise na Crimeia, terrorismo e, no final, esqueceram que o “frio” da pandemia vinha chegando, e a colcha nem tinha sido começada. E no Brasil? Bom, melhor nem analisar, pois não será confortante.

Verificamos que o nosso processo educacional não acarreta uma luz e sim nos deixa sempre no escuro achando que estamos indo para frente. Entre 1940 e 1980, nosso crescimento foi de 4% por habitante por ano, entre 1990 a 2020, isto é, em 30 anos, o produto do Brasil, medido por habitante, cresceu menos de 1% ao ano, bem abaixo da média de países semelhantes. Mas o Brasil deixou de investir em educação? Não, até aumentou seus investimentos, mas isso não fez o mesmo avançar economicamente e socialmente perante nossa demanda para o desenvolvimento. Reconheçamos! Não aprendemos… Temos que aprender a aprender!

Temos que fazer a lição de casa em todos os segmentos e o mais importante é o educacional. A miséria impõe um preço altíssimo, uma ditadura eterna e o modelo atual não consegue nos tirar desta, algo está errado, temos que “aprender a aprender” e,  assim, podemos promover a distribuição fundamental e equitativa das vantagens no Brasil. A independência de um nação não pode ficar restrita a uma data… Sete de setembro! Vivemos a cultuar uma realidade que não acarretou ainda a transformação da nação, valorizamos, ano após ano, o fato de que somos o celeiro alimentar do mundo, e permanecer nesta afirmação secular e tentar esconder nossas deficiências não é uma prática salutar ou de boa conduta. A prova é que tem outro celeiro no mundo que nunca deixou de ser também “celeiro” em tecnologia e industrialização, este se chama EUA.  Tudo muda e um dia a dobradinha soja versus carne não vai conseguir pagar a conta, e nem mesmo a outra dobradinha petróleo x ferro vai conseguir, pois o avançar tecnológico enérgico fará da “lama” preta algo sem valor.

Diminuir a pobreza, graças a programas sociais que mantêm o ser humano preso a uma situação não confortável, deixa intocadas as razões pelas quais continuamos a ser o que somos há séculos: uma das sociedades mais desiguais do planeta e menos preocupadas em equipar sua gente, e quando falamos em equipar estamos falando em educar!  Educar não apenas efetivamente, mas sim de forma eficaz.

A pandemia cria questionamentos mundiais: qual o modelo de desenvolvimento teremos que seguir? Qual o mais seguro? E neste processo todo, o Brasil não consegue pensar, até porque, por décadas, nunca fomos, como governo e sociedade, um corpo único pensante. Temos que “aprender a aprender” a pensar, a nos avaliar de forma crítica e construtiva. É um risco navegar sem um projeto ou estratégia de longo prazo, somente com base na intuição de que estamos no caminho correto, ou que seremos abençoados por um milagre. Aliás, alguma geração sabe, pela dor, o que é este “milagre econômico”. Reconhecer isto é saber que a “verdade que nos libertará”!

Toda vanguarda tecnológica é um processo excludente, pois nem todos podem se inserir dentro deste campo de trabalho na mesma velocidade ou, às vezes, nem espaço terá. Um novo desafio perigoso se apresenta, mas temos uma única certeza: é muito melhor ter estes excluídos preparados educacionalmente do que tê-los abandonados à própria sorte. Logo, nosso foco tem que ser a qualificação de nosso aparato produtivo e um desenvolvimento baseado em democratização de oportunidades e capacitações. A economia do conhecimento deve ser universal e não ilhas de privilégio que possam levar à precarização em detrimento da capacitação.

A pandemia é tempestade passageira. Se desejarmos, poderemos fazer renascer um período de grandes projetos nacionais consistentes em resposta a nossas mazelas históricas, mas nenhum projeto será sustentável sem colocar a educação como fundação para edificação deste. Projetos exigem que os países possam encontrar empírica e experimentalmente a maneira de se organizarem para resolver seus problemas, mesmo que alguns aspectos da atual globalização sejam um pouco inimigos desse objetivo. A educação esta aí para  ser a porta de saída do caos aparente.

Nosso objetivo educacional deve ser buscar a inovação, pois, enquanto países desenvolvidos e emergentes impulsionam esse avanço e se beneficiam dele, o Brasil vive enormes dificuldades para estancar e diminuir a crescente distância que nos separa das práticas mais inovadoras e tudo piora quando verificamos que 55% da população de 25 anos ou mais não tem ensino médio completo e 20% da população entre 14 a 29 anos (10 milhões) não estuda nem está ocupada.  Falta de foco e de visão de futuro, e nossa miopia nos prende ao imediatismo, às vezes banal, que empurra o Brasil sempre para o precipício do atraso, eternizando-se como grande comprador e usuário de tecnologia externa… Se o nosso “Agro é Forte”, não é uma conquista exclusivamente nossa, mas é consequência de uma enorme ajuda de algumas nações que investiram e investem em educação geradora de resultados, e hoje dominam os campos dos “celeiros” do mundo.

Colaboração: Carlos Roberto Favoretto – Conselho de Administração da Cocari

Categoria:Diario De Mandaguari